cargando-librosO artigo abaixo do professor de Direito Constitucional da GV, Dimitri Dimoulis, traz uma reflexão bastante presente em minhas análises como advogada e pesquisadora de Direito.

Não é de hoje que sabemos da impossibilidade de alcançar a neutralidade científica. A começar porque somos humanos e, por isso, seres construídos socialmente, com crenças, posições e ideologias. E pesquisadores são, antes de serem pesquisadores, seres humanos.

Para isso existem os métodos, metodologias, comissões, orientadores, avaliações, bancas examinadoras, etc. que apontam (ou ao menos deveriam apontar) para o máximo de neutralidade possível, baseando a pesquisa e os resultados somente em dados e fatos, tendo consciência inclusive das limitações intrínsecas à própria ciência.

Também sabemos, contudo, que as instituições não são neutras. Elas respondem a determinados interesses, principalmente, quando são instituições públicas.

O problema é quando estes interesses não são os “interesses públicos” esperados pela maioria da população, ou seja, o desenvolvimento e o bem estar coletivos.

Meu campo de estudo sempre envolveu problemas que tinham impacto em minha realidade cotidiana. Logo ao sair da faculdade, durante um período em que minha mãe ficou internada por quase dois meses, entre idas e vidas, em uma UTI, resolvi pesquisar sobre os impactos jurídicos deste procedimento.

Anos mais tarde, já trabalhando no Tribunal de Justiça, vivenciei como funcionária um dos mais longos períodos de greve do funcionalismo estadual. Durante a especialização em Direito Público que fazia na época, escrevi sobre o tema.

Mais recentemente, como funcionária da Procuradoria Geral de SP, me deparei com inúmeros casos de compra de precatórios para saneamento de dívidas de ICMS, assunto que acabou por compor minha última dissertação como especialista em Direito Tributário.

Atualmente, creio, com ainda mais firmeza, que qualquer transmissão de conhecimento precisa ser fruto de profunda vivência pessoal em relação ao tema em debate, não apenas por leituras e acompanhamento distante, mas sim, por meio da observação atenta do pesquisador do Direito e participação em situações práticas relativas aos questionamento por ele propostos.

Infelizmente, no entanto, o que se vivencia nas academias brasileiras não é isso. E, como consequência, a maior parte da produção jurídica nos dias de hoje acaba por resumir-se em um emaranhado de citações doutrinárias e jurisprudenciais vazias de significado prático.

Ter a coragem de por o dedo nas feridas, e, mostrar pensamentos mais criativos e condizentes com a resolução dos problemas que vivemos, faz parte do meu atual propósito de vida.

Hoje busco, dentro das capacidades e limitações que possuo, me proporcionar como pesquisadora mais proximidade dos assuntos que me interessam através de atitudes e posturas mais corajosas.

Afinal, independente da aprovação acadêmica e de sua falta de precisão em determinar a neutralidade em favor do chamado “interesse público”, somos seres pensantes e devemos continuar exercendo essa função em nossas manifestações orais e escritas.

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Revista Consultor Jurídico, 30 de agosto de 2013
http://www.conjur.com.br/2013-ago-30/dimitri-dimoulis-visao-plural-pesquisa-juridica