Divindade de origem itálica muito antiga, Saturno era um deus romano que foi sempre identificado com o deus grego Cronos.

Dizia-se que Cronos (agora Saturno) tinha vindo da Grécia para a península italiana depois de ter sido expulso do Olimpo por Zeus (Júpiter), seu filho, que o destronou e o atirou pela montanha abaixo. Júpiter, ou Zeus, tinha sido o único filho de Saturno salvo (pela mãe, Reia) de ser devorado pelo pai, que temia que algum dos seus descendentes lhe viesse a usurpar o trono. Saturno, expulso da montanha sagrada, instalou-se então em Roma, na colina do Capitólio, onde terá fundado uma aldeia fortificada, Saturnia.

Outra versão alude ao facto de Saturno ali ter sido recebido por um outro deus oriundo da Grécia e ainda mais antigo que ele, Jano, a divindade bifronte.

Jano habitava do outro lado do rio, numa colina que ficou chamada Janículo, em sua honra.A região de refúgio de Saturno ficou a chamar-se Latium, por aí se ter escondido (em latim, latere, estar escondido).

Tornou-se assim o seu reino, rico e com um futuro promissor. Terá sido Saturno, segundo a tradição, quem terá ensinado aos habitantes da região (chamados de Aborígenes) a agricultura.

Presidia igualmente às sementeiras, protegendo depois as culturas. Era o deus dos adubos, fertilizantes do solo. Para os camponeses, era por tudo isto o seu patrono.

Também deu aos Aborígenes as primeiras leis, dando continuidade à obra civilizadora que Jano tinha começado. Foi esta a chamada “idade de ouro” itálica, tal era a prosperidade, paz e harmonia desfrutadas. Saturno ficou a ser por isso um deus da “civilização”, da Abundância (Ops, identificada com Reia).

Naqueles tempos da idade de ouro, corriam rios de leite alternados com rios de néctar, e a terra produzia sem que fosse necessário o trabalho dos camponeses.

Reinava a paz e a distribuição igualitária da terra e dos bens entre todos, como dizia Virgílio.Saturno tinha como atributos, na sua representação iconográfica (em que surgia como um velho) uma pequena foice – que lhe servia para cortar o cereal nas searas, para podar as árvores e as vinhas, como servia também para castrar ou mutilar – ou uma serpe, conotando-se a sua lenda com a invenção e difusão do fabrico do vinho e da cultura e tratamento da vinha.

Os dias consagrados a este deus chamavam-se Saturnales, e eram os que encerravam o mês de dezembro, que lhe era dedicado, pois era nesta altura que começava a germinação das plantas.

As festas que nesses dias tinham lugar, as Saturnalias, entre 17 e 23 de dezembro – que festejavam o solstício de inverno, para fazer com que o Sol regressasse ao céu, bem como a abundância, a igualdade e a liberdade dos tempos dourados do reinado de Saturno no Lácio – tinham um carácter algo libertino e carnavalesco.

Eram um período de exceção no ordenado e disciplinado quotidiano romano, com encerramento das escolas e tribunais, pausa nas guerras e nos trabalhos políticos e administrativos.

Durante estes licenciosos festejos, as classes sociais alteravam-se, sendo até abolidas por alguns dias. Os escravos e servos eram então senhores, dando ordens e exigindo, e estes últimos faziam então de criados, servindo à mesa e obedecendo em tudo o mais.

Era pois a recordação de uma idade de ouro em que não havia distinção de classe e a liberdade a todos tocava. Daí que no fim dos banquetes públicos que se realizavam nas festas, os mesmos em que se subvertiam as classes sociais, todos entoavam um hino em honra a Saturno, Io Saturnalia (“Viva as Saturnais”), uma memória e um apelo ao retorno da paz e riqueza da Idade de Ouro. O templo dedicado a Saturno em Roma existia desde o século V a. C.

Saturno (mitologia). In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-09-03].